19 novembro 2013

O que sobrou de nós.

(Via We <3 it)

Acordei exatamente às 7h como todas as manhãs. Olhei em volta, o apartamento estava um caos de novo. Na verdade, ele já estava assim há um bom tempo.
Levantei ainda sonolento e pisei em uma das garrafas de vodka que estavam no chão ao lado da minha cama. Quase caí. Precisava colocar aquilo no lixo e dar fim aos maços de cigarro apagados na mesa ao lado da cama. Posso fazer isso quando voltar.
Fui ao banheiro e olhei no espelho. Não fazia a barba há umas três semanas e sequer tinha paciência para passar o pente no cabelo. 
Meu banho durou em média 7 minutos como todas as manhãs. Peguei a mesma camisa amassada de ontem e o terno que deixei em cima da mesa. Mais uma segunda-feira. 
Olhei no relógio, 7h30min pelo horário de Brasília. Hora de pegar o metrô. 
Dei uma última olhada na casa e prometi a mim mesmo que dessa vez iria arrumar tudo quando chegasse. E colocaria aquele porta-retrato ridículo e cor de rosa fora. 
Eu nem precisava dar muitas explicações no trabalho. A minha falta de humor e excesso da café já me denunciavam. Todos eles já sabiam que ela tinha ido embora, mas ninguém sabia para onde. Nem eu.
Ela simplesmente fechou as malas e saiu. Deixou a chave embaixo do tapete e desapareceu da minha vida. Sem nenhum bilhete ou aviso prévio. Talvez se eu tivesse dado mais atenção aos pequenos sinais, teria impedido, teria feito diferente e teria me dado conta antes do fim. 
Ela era baixinha, tinha voz fina e quando gritava, aquela vozinha ficava insuportavelmente irritante. Ela não conseguia ficar quieta por um minuto. Sempre com mil e um planos na cabeça e sonhos que queria realizar e com sorrisos largos. Eu nunca dei muita bola para isso, enquanto ela queria viajar pelo mundo, eu só queria tomar uma cerveja bem gelada no final do expediente. 
Ela adorava esses filmes idiotas de comédia romântica e sempre me obrigava a assistir algum com ela e eu cedia, porque bem lá no fundo, eu gostava da companhia dela e até achava graça dos comentários dela ao longo da porcaria do filme. 
A gente costumava sair às vezes, mas quando não tinha ninguém por perto. Era mais fácil e ela não se importava. Não me julguem como um idiota, eu gostava dela, mas eu acho que nunca percebi isso até não ver mais as roupas dela penduradas no nosso guarda-roupas. 
Sempre que eu chegava em casa nem precisava perguntar sobre o dia dela. Era soterrado por informações e perguntas: Você leu a minha coluna hoje? Minha matéria foi capa! Eu balançava a cabeça, mesmo não tendo ideia do que ela estava falando. 
No começo ela não se importava, até ria do que ela considerava falta de atenção. Eu sabia que ela estava machucada, pelas conversas que eu ouvia lá da sala quando ela estava no telefone, ela ainda lembrava do ex. A garota me falou que ele deixou a vida dela uma bagunça quando foi embora e que costumava começar outros relacionamentos para preencher o vazio que o último deixou. 
Eu nem me importei muito, para mim estava bom do jeito que estava.
Fim do expediente. Hora de pegar o metrô. 
Comprei um jornal na banca no caminho e dessa vez eu vi: Mais uma matéria dela na capa. Ela sempre foi muito inteligente e astuta o suficiente para correr atrás do que queria. 
Várias vezes eu me perguntei o que raios ela queria comigo. Uma garota daquelas merecia um pouco mais que indiferença, o que eu não poderia dar a ela. Pelo menos eu pensava que não. 
As coisas começaram a mudar no começo desse ano. Depois de dividir o mesmo teto com ela durante três anos, pelo menos alguma diferença eu conseguia notar. Quero dizer, ela não calava a boca um minuto e aos poucos, suas novidades, piadas, filmes idiotas e conversas aleatórias iam diminuindo. Ela não sorria tanto e começou a falar só o essencial. Eu deixei, achei que era coisa de mulher. 
No meio da noite, ela só virava para o lado e dormia, sem compartilhar comigo todas aquelas teorias mirabolantes que ela tinha. Sem falar "a gente" quando se referia ao futuro.
Um dia ela não apareceu para jantar, no outro ficou a noite inteira fora. Depois resolveu tirar férias com as amigas e apenas deixou um bilhete com a data de retorno. Não me ligou na semana que esteve fora e eu deixei pelo menos duas mensagens por dia na caixa do seu celular.
Também saí com meus amigos e algumas amigas. Enchi a cara e acabei acordando na cama de uma mulher que conheci em um bar na manhã seguinte. Não lembrava de muita coisa.
Ouvia o celular tocar a cada dois dias com a voz dela respondendo as perguntas que eu havia feito. Falou um pouco sobre o lugar que estava e teve que desligar porque ia a alguma festa.
Aproveitei suas ausência para me livrar das flores que sempre estavam em um vaso na sala. Eu sempre disse que odiava flores e ela insistia em colocá-las bem no meio da mesa de jantar.
Arrumei o quarto quando soube que ela estava voltando. Ela odiava bagunça. Comprei uma estante nova porque ela já estava reclamando que não tinha mais espaço para os livros na antiga. Ela ia gostar. Acabei comprando as malditas flores e colocando na sala de novo.
A verdade é que eu sentia falta dela, mesmo cheia de defeitos e tagarela que fosse. E eu estava pronto para dizer. Que sentia falta, que gostava e que me importava. Ela sorriria e nós iriamos começar tudo de novo. Eu até iria ler todas as matérias dela a partir de hoje.
Recebi umas mensagem dizendo que ela trocou o vôo de última hora e só chegaria na manhã seguinte. Dei uma última olhada em uma foto nossa de 2006 em um porta-retratos que ela tinha ao lado da cama. Eu sempre odiei fotografia e ela sabia disso. Fui dormir. Queria que ela chegasse antes do meu horário de trabalho. Ela não chegou.
Cheguei do trabalho aquele dia e ela não estava em casa. Telefonei e o celular estava desligado. Mandei mensagem, procurei por qualquer bilhete que ela tivesse deixado pela casa, mas só encontrei o lado dela do guarda-roupas vazio.
Parecia um soco no estômago. Ou um chute no saco. Aquilo não poderia ser real. Ela não poderia ter ido embora sem ao menos um motivo aparente. Mas ela tinha e só agora eu sabia. Porque era só uma questão de tempo até uma garota como aquela acordar e ir embora. Agora ela sabia que merecia mais. Eu estava disposto a oferecer mais, mas já era tarde. Liguei mais umas três vezes e na manhã seguinte também. Nada dela.
Procurei no Facebook, liguei para os pais dela, aquela amiga baixinha dela... Como é mesmo o nome?
Ninguém sabia de nada.
Ela havia evaporado, não deixou nada. Nenhuma lembrança ou algum remédio esquecido na gaveta do criado-mudo. Ela sempre esquecia os remédios. Os livros tinham ido embora também e agora eu tinha duas estantes vazias na sala. Me pergunto se ela chegou a ver a nova.
Ela só queria um pouco mais de mim e eu nunca consegui dar. Eu só queria que ela estivesse por perto porque a presença dela me fazia sentir menos vazio.
Ela dizia que a gente bastava e que era feliz. Ou talvez só queria se livrar das lembranças daquele tal de ex dela. É, o cara aquele da bagunça. E eu acho que acabei bagunçando tudo também e agora talvez ela já esteja procurando outro cara para encobrir o caos que deixei a vida dela. 
Abri a porta de casa e caminhei até o quarto. Amanhã eu coloco as garrafas de vodka fora. Junto com o maldito porta-retrato cor de rosa e tudo aquilo que sobrou de nós. Amanhã, sem falta. 

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