23 setembro 2013

Liam, o inglês que deixe para trás. [parte I]



Era fim de tarde em Amsterdam quando cheguei na estação que pegaria o próximo Megabus para Londres. Entrei no bonde sprintter errado umas duas vezes e carregava uma mala de mão e uma monstruosa mala de porão até finalmente chegar ao meu destino.
Eu lembro que tinha um pôr-do-sol e um vento gelado do caramba. Dos seis dias que fique em Amsterdam, apenas o último foi ensolarado. Eu estava com duas calças, um blusão e dois casacos para não pagar bagagem extra na hora de pegar o ônibus e vou dizer: Não é confortável, principalmente quando é verão. Mesmo que o verão do Amsterdam seja friozinho eu estava quase morrendo de calor.
Andei por toda estação - quase vazia - a procura do box certo para esperar pelo ônibus. A tal da estação parecia um cenário de filme de terror e a medida que eu caminhava, ficava imaginando por onde sairia correndo caso um zumbi me atacasse e como seria ruim deixar minha mala com tudo que eu tinha para trás. Não sei vocês, mas quando estou em lugares amplos e desertos costumo imaginar como reagiria se algum ser de filmes de terror aparecesse de repente. Quando cheguei ao box, resolvi sentar e fiz uma cadeira com minhas duas malas e fiquei esperando o horário de partida. Faltava exatamente uma hora e meia para o ônibus chegar e eu estava revirando os olhos de tanto tédio, tentei conectar a internet do celular sem sucesso e no final das contas decidi ler alguma coisa enquanto aguardava.
Como falei antes, a estação de ônibus estava quase vazia exceto pela minha presença e a de outra pessoa avulsa lá: Um cara deitado no chão usando uma mochila gigante como travesseiro todo encolhido, vestindo um casaco moletom e... chinelos. Por um momento pensei até que fosse um mendigo, mas logo vi que se tratava de um mochileiro das galáxias. Não olhei muito e voltei minha atenção ao livro que tinha nas mãos. 
Apesar do friozinho que fazia, de tanto arrastar mala para lá e para cá, acabei sentindo calor e resolvi tirar um dos casacos  que vestia e colocar na mala. Algo que não tem muito mistério, mas quando você é uma pessoa desastrada, acaba tropeçando nas rodas da mala e derrubando tudo que estava apoiado nela no chão. Ah e fazendo bastante barulho. E acordando pessoas que dormiam na estação de ônibus.
O coitado do cara encolhido deu um pulo de sopetão e ficou observando enquanto eu tentava recolher as malas do chão, fiquei com muita vergonha de olhar para ele e acabei murmurando um "i'm sorry" só para não parecer mal educada. O que não tem muito sentido se você parar para pensar já que o guri estava dormindo em um local público. 
Ok, depois que o meu momento desengonçado de juntar as malas de novo na frente do estranho que eu fiz o favor de acordar com minha bagunça passou, sentei novamente e fiquei com o rosto quase colado no meu livro. Coloquei os fones de ouvido, estava escutando alguma música do Train e esqueci da existência do guri por uns minutos. Tá bom, tá bom... Não esqueci! Ah, qual é o problema? Ele era bem bonitinho e olhar de longe não tira pedaço de ninguém. 
Ele era loiro com cabelos cacheados que estavam mais para amassados, tipo quando a gente sai do banho, vai dormir com o cabelo molhado e na manhã seguinte acorda com ele enredado. Ok, sendo completamente sincera com vocês, o cabelo da criatura parecia um ninho de ratos. Ele também tinha olhos castanho, o que na minha opinião é muito mais bonito que olhos claros em pessoas loiras e não era muito alto, se eu não me engano aparentava ter 1,70 de altura. Não sou boa em descrever fisionomias, mas eu posso dizer que ele lembrava um daqueles caras da boyband famosinha do momento. Como é o nome dela mesmo? Ah, One Direction. 
Eu olhei para o cara pelo menos umas três vezes enquanto lia, mas acho que esse não era um problema, já que eu sempre tenho essa mania de ficar encarando todo mundo mesmo. Só que toda santa vez que eu olhava para ele, ele estava olhando de volta e diferente de mim, ele não desvia o olhar. 
Ignorei a encarada do guri e me concentrei no meu livro de uma vez por todas. A medida que escurecia, o resto dos passageiros começava a chegar e a estação que estava silenciosa, foi inundada por conversas em inglês, holandês, mandarim, russo e português. 
Foi ao escutar um "Nossa, véi" que larguei meu livro e procurei de onde saiu aquela frase, afinal, eu já estava na Europa há quase dois meses e ouvi o bom e velho "português brasileiro" pouquíssimas vezes.  Encontrei os donos das vozes, eram dois paulistas que estavam fazendo mochilão e estavam indo para Liverpool, e comecei a conversar com eles sobre toda aquela coisa que brasileiros que estão no exterior conversam. Nem percebi que do nada todas as vozes ao nosso redor silenciaram para descobrir que raios de língua nós estávamos falando. Nem preciso dizer que o guri de antes também estava prestando bastante atenção. Continuamos conversando até a hora que o motorista finalmente chegou ao box e mandou que despachássemos a bagagem. Uma dica para quem pretende viajar por mais de um mês pelo exterior: Leve uma mala de mão. Não, não leve a mala de mão e mais uma gigantesca. É sério. Mesmo que você seja mulher, leve só o básica em uma mala pequena e depois compre uma grande, mas só em último caso. Passei por maus bocados carregado minhas malas e isso não foi diferente na hora de colocar tudo no bagageiro do ônibus. Acabei sendo a última da fila para entrar no veículo e consequentemente tive sentar no último lugar que sobrou, bem no fundo. Nem me importei tanto porque o lugar era na janela e eu queria aproveitar a visão quando estivesse chegando em Londres na manhã seguinte. 
E mesmo já dentro do ônibus para a Inglaterra, eu mal conseguia acreditar que um dos meus maiores sonhos estava para se realizar dentro de dez horas. Londres estava logo ali, o lugar que eu sempre quis conhecer - e não só por causa do Harry Potter - e que eu JAMAIS imaginaria colocar os pés um dia. E lá estava eu: Sentada no último assento de um ônibus azul esperando o momento que finalmente - FINALMENTE - iria realizar um sonho. O primeiro sonho que realizei ao longo dos meus 21 anos, diga-se de passagem. 
E com os fones de ouvido a todo volume e os pensamentos em turbilhões que senti alguém cutucando meu ombro. 
- Excuse me, can i sit here? 

[Continua...] 

5 comentários:

  1. Ansiosa pela parte II. Joana

    ResponderExcluir
  2. Legal a história! Estou esperando a parte dois, ou três ou quartro =O

    ResponderExcluir
  3. Continua logo essa história pra eu poder projetar meus desejos de conhecer a Europa em ti e na tua viagem! HDIUASHIU
    Gostei!

    ResponderExcluir
  4. Droga Luiza tu sempre para na parte boa ahsiuahiushas *-*

    ResponderExcluir

Obrigada pelo seu comentário! Até a próxima :D

© Luiza de Jobim Copyright 2016 Todos os direitos reservados.
Design by Tamires Sobral | Portfólio Ícones by flaticon.com