05 agosto 2012

Idiota.


A música era agradável aos ouvidos. A melodia saída do piano inundava o salão de festas o transformando em um daqueles bailes tão amados pelas mulheres naqueles filmes antigos. Mulheres. Resmunguei mentalmente. Mulheres são seres tão previsíveis, tão encantadoramente previsíveis que eu nunca deixaria de odiá-las e amá-las ao mesmo tempo. Um tanto quanto piegas.
Todas elas se mexiam com graça no salão, seus vestidos com mil e um bordados e detalhes desfilando combinados com o olhar fatal à procura de uma presa para bancar uma bebida ou apenas essa competição estúpida que as mulheres fazem para ver qual delas consegue agarrar o homem mais influente do lugar. Porque é só isso que elas querem ao final da noite.
E mesmo com seus vestidos, penteados e perfumes de diversas formas, cheiro e truques todas elas era iguais. Atrás daquelas máscaras cheias de plumas e brilho – porque queriam se sentir em um baile antigo – uma por uma daquelas mulheres no salão não tinham a capacidade de me fazer pensar algo diferente sobre sua raça maldita.
Mais uma música, mais um drink. E para a moça do vestido vermelho ao meu lado que me olhava fixamente, alguma dose de coragem. Mas ela não falaria. Esperava que eu virasse para me lançar aquele sorriso encantador que as mulheres tem. O maldito sorriso que hipnotiza qualquer homem. E então eu pediria para ver seu rosto por trás da máscara, ela mostraria e iríamos para a cama. A magia da moça do vestido vermelho acabaria em segundos e nada sobraria pela manhã além de um vestido amassado jogado no chão do quarto, uma maquiagem borrada e um maço de cigarros escondido embaixo do travesseiro logo após me dizer que não fuma.
Ignorei seu olhar por várias músicas. Ou o enorme decote na parte de trás do vestido que deixava suas costas completamente nuas. Ou a marca do batom caríssimo na sua taça de espumante. Ela me mandava sinais e eu fingia não ver. Como fizera toda a noite a cada aproximação feminina. Nenhuma delas, por mais encantadoras, conseguiam me tirar daquela imersão de pensamentos. A culpa é dela, novamente.
A verdade é que nenhuma daquelas mulheres chegaria aos pés dela. Nenhum decote bem preenchido, vestido deslumbrante, sorriso sedutor ou conversa ensaiada na frente do espelho. Ela tinha aquele jeito único e simples. Ela gostava de tardes de primavera e do meu perfume que ela sempre perguntava o nome. Ela costumava discutir comigo sobre política e livros. E, céus, como era teimosa! Ela não era tão sofisticada como as mulheres nessa festa e achava mesquinho pagar mais de duzentos reais em um sapato. Ela ria das outras tantas mulheres que passaram pela minha vida e dizia que eu ainda mudaria por uma delas. E ela tinha razão, novamente.
Ela não tinha classe o suficiente para ser uma delas, dizia. Não fazia parte daquele grupo de mulheres que prefere sofrer andando pelas ruas para mostrar seu Jimmy Choo ou Louboutin – sapatos que em minha mente masculina e desatenta eram só sapatos. Ela era simples e não gostava de seguir a moda fielmente. Por várias vezes me perguntei o que havia de errado com aquela mulher. E como cheguei ao ponto de precisar de sua presença, perfume e pele colada na minha tão desesperadamente. Ela era errada, teimosa, infantil e cheia de manias. Ela era tão diferente das mil mulheres encantadoras que passaram na minha vida.
Mulheres como a de vermelho ao meu lado. Que no fim da noite virariam abóbora e perderiam seu encanto.
Meus pensamentos davam voltas e mais voltar em minha cabeça, a culpa de deixá-la ir embora me corroía como jamais pensei que uma presença feminina faria. “Você me deixou partir” sua voz ecoava em minha cabeça. Sim, eu deixei. Eu a vi ir embora com sua pequena mala pela janela do meu escritório e nada fiz. Era só mais uma indo embora tão rápido quanto apareceu em minha vida. Certo? Errado, seu idiota.
Talvez eu devesse voltar atrás e pedir que ficasse. Mas eu não o fiz.
Deixei a mulher da minha vida ir embora e abri espaço para mais uma dessas moças de vestido vermelho, decotes cheios e mentes vazias invadirem meu espaço por uma noite e dispensá-las como se fossem um pouco menos que nada. Idiota minha mente seguia insistindo e não importava quantas vezes eu tentava calar com goles de bebida.
Ela se fora e jamais voltaria. A verdade é que cometi o maior erro que um homem poderia cometer. E vi aquela figura que alegrou meus dias por pouco mais de um ano entrar em um carro e desaparecer no horizonte.
Mais uma vez tentei desviar meus pensamentos. Por que eu cheguei a pensar, mesmo que por um minuto, ela voltaria? Ela era previsível o bastante para nunca mais olhar para trás e lembrar-se de mim como um infortúnio verme.
Tomei mais um gole de minha bebida. Olhei para o lado esperando ver a moça do vestido vermelho sorrir para mim mais uma vez, mas ela não estava mais lá. Ótimo, menos uma para me dar trabalho.
“Idiota” ouvi uma voz conhecida falar atrás de mim. Era aquela voz. A voz da mulher que vi partir e pensei que jamais voltaria. Virei lentamente e lá estava ela, em um vestido preto e sem bordados, sorrindo para mim. E parecia saber exatamente o que eu estava pensando. Como sempre. Contive um sorriso “ah, é você” disse com indiferença. Mas ela sabia que aquela tentativa de apatia era fajuta. Assim como todas as minhas explicações e desculpas para não sentir a sua falta. Ela sabia que eu era um perfeito idiota, mas sempre seria seu. Seu idiota. 

Um comentário:

  1. Sineramente? Eu adorei cada linha que tu escreveste! Tão bom ver a minha estrelinha brilhando! Te amo muito e sinto muito a tua falta por aqui. Saudade

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Obrigada pelo seu comentário! Até a próxima :D

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