07 fevereiro 2012

Valerie


Valerie by Amy Winehouse on Grooveshark



Entrei naquele bar sujo que ficava perto da minha casa, era uma noite de quarta-feira como todas as outras, as ruas estavam desertas e o lugar também. Escutei uma música lenta vindo da vitrola e sentei em um dos bancos mais afastados do balcão e pedi o meu whisky de sempre. Havia apenas outras duas pessoa sentadas lá, o velho Harry que já conhecia de outros carnavais, como sempre sentado em uma mesa pensativo e olhando pela janela, esperando pela neve que a qualquer minuto começaria a cair. Se bem lembro, Harry perdeu a esposa há uns cinco anos e desde então toda noite de quarta-feira encontrava-o sentado no mesmo lugar com a mesma expressão, talvez esperando que sua esposa aparecesse e dissesse que tudo não passara de um pesadelo. Pobre Harry.
E a outra pessoa sentada em um canto qualquer, com um vestido preto e um batom barato era Amy. Amy é uma meretriz, frustrada e amargurada, era órfã e sofria maus tratos na casa em que morava, fugiu aos 16 anos e andou por esse mundo gasto até cair na teia da prostituição, desde então a vejo por aqui com um cigarro entre os dedos e um drink na mão.
Essas são as pessoas que me fazem companhia nessa quarta-feira. Observando-os durante todos esses anos, sinto-me egoísta e pequeno por tratar meus problemas com a importância que trato. Não tenho tantos motivos para reclamar da vida e penso assim na maioria das vezes, sendo sincero, minha vida andava no mais perfeito equilíbrio. Até hoje.
Depois de muito tempo a vi, andando pelas ruas com óculos escuros, um salto de 15 centímetros e uma seriedade que nunca havia notado em seu rosto juvenil. Seu cabelo estava diferente, os cachos definidos e o cabelo vermelho flamejante não lhe pertenciam mais, no lugar havia nada além de tinta escura esparramada por suas mechas que já foram tão brilhantes.
E apesar de tão diferente, eu a reconheci. Afinal, como não reconheceria aquela mulher que esteve presente na minha vida durante tanto tempo? E eu sei que por trás daqueles óculos gigantes, seu olhar também encontrou o meu e sei ela arqueou sua sobrancelha esquerda de leve, como sempre faz todas as vezes que fica surpresa, ou pelo menos fazia.  Eu pensei em sorrir, chamá-la e perguntar como andava sua vida, convidá-la para tomar um café e jogar conversa fiada fora. Ela sempre foi o tipo de pessoa que gosta de conversar, rir e fazer brincadeiras. O que me faz pensar novamente em porquê de eu ter feito aquilo para me livrar dela. Fui bobo em deixá-la partir sem tentar impedir. Bem, desde que você foi embora, meu corpo e minha cabeça viraram uma bagunça.
Então tal foi minha surpresa: ela andou reto a passos firmes e largos, ignorando-me como se fossemos estranhos e todos aqueles anos tivessem evaporado. Talvez eu estivesse errado ao pensar que  voltaria para meus braços esquecendo-se do que eu fiz.  Essa era a garota dos cabelos vermelhos e olhos amendoados que conheci há anos atrás, aquela garota que sempre esteve ao meu lado apesar de tudo e deixei ir embora sem ao menos lutar por ela. Oh, Valerie, o que eu fiz?
Então retorno a esse velho bar empoeirado e com cheiro de cigarro e bebida, com sua imagem rodando e rodando na minha cabeça enquanto viro mais um copo de whisky, pensando...  Se tivesse alguma maneira de voltar no tempo. A verdade é que eu sinto sua falta, do seu sorriso bobo e suas brincadeiras idiotas. E sinto falta do seu cabelo ruivo e a maneira que você costumava se vestir. Oh, por que eu te deixei ir embora, Valerie?

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